Viajar entre pernas e delícias
escrever é enfiar um dedo na garganta.
'Estava conversando com um amigo meu, desses de muito tempo, e ele me definiu de uma maneira engraçada. Ele disse que sempre me viu como uma pessoa de ficar. Não de ficar tipo beijar e ir embora. Nada disso. Ficar do tipo que enfrenta, que agüenta, que permanece por perto, que assiste, que insiste. Achei, de início, uma definição estranha. Mas, quando parei para pensar, fez um sentido enorme. Porque realmente podemos dividir a maioria das pessoas entre aquelas que ficam e aquelas que vão embora.
Eu conheço mil pessoas que passam a vida toda indo embora. Entram em mil cursos sem se definir por nenhum, desistem de sair de última hora, fazem visitas rápidas, abandonam seus relacionamentos quando algo está dando errado, esquecem das amizades quando estas estão dando trabalho. Desistem da carreira, do emprego e até da faculdade. Procurando sempre a felicidade que está ali na frente, nunca por dentro, nunca por perto. Alguns até procuram a felicidade nunca possível.
E existem pessoas que preferem ficar. Encarar um problema chamando o outro pra conversar. Passando recibo de chato quando preciso. Indo trabalhar na raça. Tentando ao máximo se entender com quem ama, mesmo quando existem outras opções. Não fazendo questão em simplesmente escutar os amigos durante horas.
Parece ser mais difícil insistir, persistir. Para as pessoas que são de ir embora, parece ser um caminho doloroso. Mas, creio eu, tem muito mais a ver com fé. E não é fé nas coisas ou pessoas, é fé na gente mesmo. Fé que fazemos escolhas certas, fé que mesmo os momentos difíceis têm algo para ensinar. Fé que conseguimos perceber isso. Fé que ficar nos faz pessoas melhores.
E as pessoas ainda alegam que estão indo embora porque não temos muito tempo para errar. Eu acredito que quando vamos embora estamos traindo o tempo. Estamos fazendo uma puta sacanagem com aquele tempo em que se acreditou. Aquele tempinho lindo antes de uma paixão. Quando começamos a perceber que estamos nos apaixonando. Ou àquela hora pela manhã em que estamos ansiosos para chegar no trabalho. Ou aquela vez em que nos vimos empolgados com nossas profissões. Ou mesmo o quanto ficamos felizes naquele tal dia quando estamos com aqueles tais amigos. Eu prefiro aproveitar meu tempo não desperdiçando esses momentos. Respeitando esses pequenos milagres cotidianos.
Ir embora é fácil. Ficar é a prova que estamos crescendo. Por isso que eu não vou embora atrás da felicidade que não encontro. Eu parto quando consigo caminhar de mãos dadas com essa felicidade. Não sei se a levo comigo sempre. Às vezes, ela solta da minha mão e eu da dela. O que sei é que a felicidade não combina com perfeição.
[Thatiana Pimentel]
'Eu tenho um reino onde eu não reino. Um lugar onde eu desnudo e nem se quer me vejo. Minha alma a qual expus pelo avesso, esta se quer perdura. Muda todo dia expressamente. Nada me possui e eu não possuo nada. Não tenho dinheiro, mas pago o preço que for pra me livrar desse coração tosco e pobre. Perdi a conta de quantos planos em longo prazo não se realizaram. Ando míope pro tempo. Aqui eu fico como visitante e quando saio ninguém sente falta, aquele lugar nunca foi meu, eu nunca fui de lugar algum. Dou passos longos pro passado e revisito meus comandos, contraio cegueira, volto pra qualquer lugar e qualquer lugar volta pra mim. Eu não vejo nada além do que os outros olhos vêem. Eu recaio de medo de estar sem permanecer. Não conjeturo nenhum laço de braços em volta do meu pescoço me fazendo um lugar, se acolhendo dentro da minha alma mutável que engatinha pra uma possível evolução, evolução esta que talvez nunca seja alcançada, talvez, embora indolor eu esteja mesmo involuindo. Eu Recuo, antecipo e distancio. Quero chegar tarde, mas a minha pontualidade me leva no momento exato pra lugares que eu não sei onde é, procuro erguer-me, mas caio. Meu equilíbrio é distante e inapropriado. Estou partindo, mas sem sair do lugar. Estou dentro de mim me sentindo fora de casa. Aonde foi parar minha alegria? Indócil? Confiante? Um golpe de descrença na hora dos pedidos ao Buda, aos deuses dos preguiçosos, uma reviravolta dentro do estômago doendo de aflição e medo. Estou indo, estou indo, estou indo, mas pareço nunca chegar definitivamente a quem eu sou. E lá vem a pancada violenta e os destroços, trazendo a sensação fatigante de que já vivi a vida inteira.'
(C. Farias)


Amanhã!
Será um lindo dia
Da mais louca alegria
Que se possa imaginar
Amanhã!
Redobrada a força
Prá cima que não cessa
Há de vingar
Amanhã!
Mais nenhum mistério
Acima do ilusório
O astro rei vai brilhar
Amanhã!
A luminosidade
Alheia a qualquer vontade
Há de imperar!