*pra Daniela (que um dia resolveu ver o sol nascer pela última vez).
Nasceu o dia e ela se levantou da cama num salto; arregalou os olhos e a primeira vontade foi de abrir as janelas, no único intuito de deixar a claridade entrar. De se deixar iluminar pelo sol e seus raios invisíveis. Nasceu o dia e nela uma vontade nova de contrariar alguma coisa, alguma lei, algum resultado insatisfatório, alguma indelicadeza do destino; Ir de encontro, gastar sola de sapato, neurônio, discurso, ações, correr junto com o tempo, sem ultrapassá-lo, indo lado a lado, no páreo. Naquele exato dia, era fome, sentia tudo com uma força sobre-humana, capaz de derrotar seus maiores e mais violentos vilões. Uma coragem e uma covardia irreparável. E na linha do horizonte apesar da sua vista chegar ao fim, conseguiu um olhar além, uma caminhada além. Um momento em que há certeza, mesmo que diferente daquela que nutria antes, tomou conta de tudo, de todos os detalhes. Um sentimento de contrariedade e desespero ruidosos.
Nasceu o dia e o silêncio dos dorminhocos arranhou sua pele sensível, ferindo sua necessidade de ser ouvida mais uma vez. A raiva por ninguém ser responsável por absolutamente nenhuma dor que sentimos, e viu em suas mãos o poder de decidir não esperar o futuro, percebeu a responsabilidade de erguer ou arruinar uma vida frágil, de decidir ficar onde nada parecia funcionar, onde as drogas de alívio não aliviavam mais nada. Se olhou inteira por dentro e seus instintos auto-protetores foram incapazes de desobedecerem a seu rancor insistente do mundo. O coração oscilava desejos colidentes, muito além do bem e do mal, muito além do ser ou não ser, era algo como espinho sem flor; caminhos sem pontes, sem postes de luz.
Nasceu o dia pra que ela se consumisse em apenas algumas horas do começo de uma quinta-feira, vestida com uma camisola de algodão, pés descalços, num dia de se levantar pra vida. Ela escolheu dormir pra sempre.
**desculpem a postagem não feliz, mas eu precisava expurgar.



